quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Resenha de: "Princípios de Interpretação Bíblica", por Louis Berkhof



BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. 3 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 142 p.
Autor da resenha:
Hélio Sales[1]

Louis Berkhof (1873-1957) foi um dos teólogos de linha reformada mais influentes do Século XX. Sua obra completa possui mais de vinte volumes, sendo sua magnum opus o livro originalmente lançado com o título Reformed Dogmatics e em edições posteriormente ganhou o título Systematic Theology[2] que ainda hoje é utilizado em muitos seminários de linha reformada.
No livro Princípios de Interpretação Bíblica, Berkhof trata de Hermenêutica Sacra[3]. O livro é dividido em três partes maiores que são divididas em sete capítulos. Essa resenha não tratará de cada capítulo especificamente, mas das três partes maiores do livro.
Na primeira parte ele faz um resumo da história dos princípios de interpretação bíblica começando pelos judeus dos primeiro século e seguindo até às escolas de interpretação da linha histórico-crítico[4] atuais. Muita coisa aconteceu em dois mil anos de Cristianismo. Vários movimentos através desses dois milênios surgiram e desapareceram. Ainda que se tenham alguns movimentos bem distintos um do outro, como, por exemplo, o monasticismo e o protestantismo, todos circulam ao redor das Escrituras. Imagine vários círculos concêntricos onde no centro está Bíblia; quem está mais próximo do centro está mais próximo da verdade, e à medida que os movimentos se afastam da verdade, o círculo deles vai aumentando cada vez mais, se afastando, assim, das Escrituras. Há ainda aqueles que não possuem as Escrituras no centro, se afastando de uma maneira radical dela e se apartando da verdade; esses são os movimentos heréticos. Berkhof abrange de uma maneira bem direta e objetiva uma grande quantidade dos ramos hermenêuticos que surgiram na história do Cristianismo. Sua capacidade de síntese é marcante. Ele descreve de uma maneira simples, porém não simplista, esses movimentos destacando suas principais características. Para alguns, ele não somente faz isso, mas também dá ao leitor uma análise crítica de certos pontos de determinados movimentos mostrando as desvantagens e erros cometidos pelo método hermenêutico analisado.
Na segunda parte do livro ele trata da concepção correta da Bíblia, descrevendo as características “que determinam, em parte, os princípios que serão aplicados a sua interpretação” (p.12). Essa parte, sem dúvida, é o ponto alto do livro. Alguém já disse que toda heresia parte da má interpretação das Escrituras e isso acontece porque muitas vezes não há uma concepção correta do objeto da Hermenêutica Sacra. Berkhof demonstra de uma maneira brilhante algumas características desse livro único. Sua demonstração da inspiração da Bíblia[5] é feita de uma maneira que só um teólogo sistemático do porte dele poderia fazer. Ainda que haja provas arqueológicas e históricas para a inspiração das Escrituras[6], ele concentra-se nas evidências internas de inspiração. O autor não segue precisamente essa ordem, mas ele trata da inspiração do Antigo Testamento, como um todo, bem como do Novo Testamento. Após isso ele vai se tonando cada vez mais especifico em sua análise até chegar a grande verdade da inspiração verbal das Escrituras, ou seja, não somente as ideias são revelação de Deus, mas até mesmo as palavras escolhidas pelos redatores do texto sagrado foram dirigidas pelo Espírito Santo. Tendo estabelecido isso, Berkhof faz uma explanação das peculiaridades do texto e da história bíblica. Assuntos como a unidade e diversidade das Escrituras, a unidade de sentido, o estilo e a relação do intérprete com o Texto Sagrado são tratadas de maneira magnífica. Berkhof demonstra uma grande afinidade com a Bíblia. Ainda que sua explanação não seja de maneira exaustiva, sua abordagem é abrangente e possui um grande poder de persuasão.
A terceira e última parte do livro, Berkhof discute os três principais pontos em relação à interpretação bíblica, a saber, a gramatical, a histórica e a interpretação teológica. Sendo essa a principal parte do livro, cada ponto citado ganhou um capítulo específico. Aqui ele explica várias ferramentas que podem ser utilizadas nessas tarefas. Dessa vez Berkhof mostra que além de sua intimidade com o texto bíblico ele possui uma grande experiência com o laborioso trabalho de interpretação. As observações feitas e exemplos dados provêm de alguém com bastante experiência de estudos profundos e laboriosos nas Escrituras.
No capítulo de interpretação gramatical o autor não dialoga com as recentes tendências sobre os problemas de significado levantados pelas hermenêuticas atuais, mas é pressuposto dele que há significado no texto e que este pode ser encontrado. O que Berkhof faz, então, é auxiliar o intérprete a achar o significado do texto. Ele mostra ao leitor que a interpretação gramatical está radicalmente ligada ao tipo de literatura do texto. Muitos livros das Escrituras estão cheias de figuras de linguagem como ironia, alegorias, símile, parábola, entre outras. Ele aborda várias delas mostrando exemplos e referências textuais, porém o leitor precisará recorrer a leituras auxiliares, como gramáticas das línguas originais, se quiser se aprofundar de uma maneira mais substancial nelas.
No capítulo de interpretação histórica Berkhof lembra ao leitor um detalhe muito importante que muitas vezes é esquecido ou ignorado. A revelação de Deus foi dada em um determinado período histórico. Sendo assim, é importante conhecer alguns detalhes importantes que ajudarão na interpretação correta do texto. A importância do conhecimento histórico refere-se não somente ao contexto político e social do período em que o livro foi escrito, mas há outros detalhes também muito importantes para o intérprete observar. Ele cita, por exemplo, que o intérprete deve notar que é importante saber quem é o autor do livro, as circunstâncias em que ele estava quando escreveu, para quem o autor está escrevendo, quem está falando em determinadas passagens, onde os personagens dessa história estão. Entender a religião, principalmente dos judeus, é de extrema valia para o intérprete. Berkhof decorre sobre cada um desses tópicos de maneira muito precisa. O objetivo dele não é escrever sobre cada uma dessas questões, mas como o intérprete deve usá-las e atentar para elas. Ainda que se esteja falando muitas vezes de documentos a parte das Escrituras, o autor sempre dá referências bíblicas para fundamentar e exemplificar o que está falando.
A interpretação teológica[7] é o terceiro elemento da interpretação bíblica falada por Berkhof. O que ele faz aqui é mostrar como o entendimento teológico deve ser usado para chegar à interpretação correta das Escrituras. Algo de extremo valor é como ele mostra que, embora façam parte de uma só revelação, o Antigo e o Novo Testamentos possuem teologias bastante distintas, porém os dois apontam para um mesmo alvo. É de extrema valia essa abordagem dada, pois ele mostra que saber diferenciar esse e outros aspectos, como por exemplo, a interpretação tipológica, é saber manusear bem as Escrituras. Berkhof enfatiza esse ponto por sua grande importância. Esse elemento de interpretação é muito importante para explicar algumas aparentes contradições. Estas são frutos de má interpretação.
O livro sem dúvida é um dos melhores materiais em português para todo aquele que quer encarar a tarefa de exposição e explicação do texto bíblico de maneira mais séria. Ele é muito recomendado para os que estão iniciando nessa peregrinação. Ainda que este livro não tenha sido escrito para pessoas que buscam um estudo mais avançado no assunto, ele servirá como um ótimo catálogo e livro de referência para aqueles já estão mais acostumados com o estudo de Hermenêutica Bíblica.




[1] O autor da resenha é graduando em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará e em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Fortaleza.

[2] A primeira edição dessa obra tinha dois volumes, o primeiro volume tratava-se de história da doutrina e o segundo de um manual de doutrina. O primeiro foi publicado em português pela editora PES com o título História das doutrinas cristã (2000) e o segundo com o título Teologia Sistemática, pela editora Cultura Cristã (3 ed., 2007).

[3] Berkohf distingue hermenêutica geral, especial e Sacra:

A [geral] se aplica à interpretação de todos os tipos de escritos; a [especial], a certos tipos definidos de produções literárias tais como leis, história, profecia, poesia. A Hermenêutica Sacra tem um caráter muito especial porque trata com um livro único no domínio da literatura, isto é, a Bíblia como a Palavra inspirada de Deus. (p. 11).

[4] Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes em sua esplendorosa obra A Bíblia e Seus Intérpretes (Cultura Cristã, 2008) escreve:

Debaixo da influência do racionalismo, a tarefa de hermenêutica passou a ser considerada como metodológica, ou seja, competia à hermenêutica elaborar um método através do qual se pudesse, de forma isenta de pressupostos, e tendo a razão e a ciência moderna como ferramentas, alcançar o sentido verdadeiro de um texto. Este método ficou conhecido como histórico-crítico (p.189).

[5] “Entendemos por inspiração a influência sobrenatural exercida pelo Espírito Santo sobre os escritores sagrados, em virtude da qual seus escritos receberam autenticidade divina e constituem uma regra infalível de suficiência de fé e prática” (p. 36).

[6] Ver Merece Confiança o Novo Testamento?, F. F. Bruce, Vida Nova.

[7] Berkhof não dá uma explicação formal do termo, mas pode-se inferir que o que ele quer dizer por interpretação teológica é buscar no Texto Sagrado o fator ou implicações místicas ou transcendentes contidas ali. Por exemplo, ele argumenta que o Antigo Testamento oferece a chave para a interpretação correta do Novo, e que o Novo Testamento é um comentário do Antigo Testamento (p. 106).
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Referências
BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. 3 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 142 p.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e Seus Intérpretes. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. 287 p.

OSBORNE, Grant R.. A Espiral Hermenêutica: Uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. 767 p.

2 comentários:

  1. Meu irmão, graça e paz.
    Muito obrigado por disponibilizar essa resenha em seu blog. Ela me ajudará na pesquisa que estou fazendo.

    Conheça o meu blog:
    http://ismaelfilgueira.blogspot.com.br/

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    1. Fico feliz que tenha gostado, meu irmão. Espero escrever mais resenhas agora que ficarei de férias. Minha pretensão é ler o livro citado do Rev. Augustus Nicodemus, o qual também farei uma resenha, se assim Deus permitir.

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